
Às vezes me desconheço:
Sou verso, inverso e avesso.
Às vezes me desconexo!
Com doce, tequila, sexo...
Às vezes me reconheço.
Me relembro, depois esqueço.
Às vezes me recomeço...
Contém: palavras primas, claras, dóceis, sujas, raras, belas, cáusticas, chave, confessas, mesquinhas, chulas, estranhas, tristes, sábias, inventadas, feias, tácitas, atemporais, corrosivas, secretas, oníricas, arcaicas, diáfanas, profanas, íntimas, covardes, risíveis, brutais, confusas, impublicáveis, reveladoras, sagradas, impronunciáveis, fluidas, rudes, murmuradas, descontextualizadas, frias, incontidas, dúbias, oniscientes, proibidas, inconscientes, cruas, floreadas, ternas, minhas...
eu optei pela amnésia auto-sugerida. aqui dentro só o eco e outro dia eu joguei tudo fora e quebrei os vidros e me machuquei até esquecer a dor e até o porque da dor, eu me escondi no escuro e agora ouço os passos. o medo paralisa o tempo. aperto os olhos e tapo os ouvidos com as mãos em concha, a cabeça baixa entre os joelhos e a nuca que tão curva dói. eu respiro o ar quente entre as pernas encolhidas. canto pra dentro da cabeça o balbuciar do que seria a letra de uma cantiga que eu adorava mas agora esqueci. como esqueci tudo. o tempo. o medo. o segredo sujo. a cor da mobília. esqueci desejo, polidez, bom senso, estética. apatia, libido, ridículo e ética. esqueci o princípio e a curiosidade de saber o fim. não me procuro, desde então, nos espelhos, molduras vazias, nas fotos desfocadas. não me encontro nos reflexos das retinas. mas me vasculhando por hábito, acho esboços, projetos, manifestos esquecidos que foram perdendo o nexo, convicções e ideologias que foram perdendo argumentos, sentimentos sublimes e pueris que foram ficando piegas. eu nem me despeço com algum pesar disso tudo, peço apenas aos demais, que não me reconheçam, que me deixem passar sem seus olhares de soslaio e seus bom dias entre dentes. eu não quero ter que lhes sorrir ou insultar. nem mesmo apenas pedir que me deixem passar.